Cientistas da USP investigam a polarização política no meio digital brasileiro

Publicado no Jornal da USP.

O ambiente digital se tornou um espaço importante para discussões políticas em todo o mundo, principalmente por causa das redes sociais. Mapear, mensurar e analisar esse “ecossistema” no Brasil tem sido o trabalho de um projeto da USP há quatro anos, o Monitor do Debate Político no Meio Digital.

“De periférica, a comunicação por meio da internet tornou-se central. O rádio e a TV deixaram de ser o principal meio e isso muda as dinâmicas de relação entre as pessoas, então precisamos entender como isso ocorre“, conta Pablo Ortellado.

Ele é docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, em São Paulo, e coordena o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital (Gpopai) da USP. O Gpopai foi criado em 2006 para pesquisar alguns âmbitos da interface digital e entender “como as redes poderiam interferir na questão dos direitos autorais e na privacidade das pessoas, por exemplo”, diz o professor.

Atualmente, o grupo conta com 12 pesquisadores de diversos institutos da USP e é o responsável pelo Monitor que, por seu escopo, tem sido o carro-chefe do Gpopai.

Uma ferramenta desenvolvida pelo cientistas recolhe todas as matérias da política nacional de centenas de veículos de comunicação e páginas de Facebook. Com essas informações, é possível examinar o número de reportagens publicadas e a quantidade de compartilhamentos e comentários que elas recebem. O levantamento também permite analisar, por exemplo, quantas vezes uma determinada palavra foi usada nas manchetes e resumos dos textos.

“Atualmente, o grupo monitora 200 sites e 850 páginas do Facebook, o que dá, em média, três mil notícias por dia e um milhão por ano”, enumera Ortellado.

Segundo o coordenador do Gpopai, o Brasil está passando por um momento político difícil e os dados mostram que há uma forte tendência de as pessoas pensarem de maneira semelhante e polarizada. “Parece haver dois polos bem homogêneos e não existir pensamento independente”, diz.

As informações obtidas pelo monitoramento ficam disponíveis na página do grupo no Facebook, uma maneira de levar a produção científica para além dos muros da Universidade.

O estudo de reportagens, às vezes, vira notícia também, com a divulgação das análises dos pesquisadores em veículos da imprensa.

Quem está nas ruas?

A polarização transparece fora do ambiente virtual. De acordo com Ortellado, cerca de 30% dos paulistanos participaram de alguma manifestação nos últimos cinco anos. Por isso, o grupo passou a acompanhá-las, principalmente na cidade de São Paulo, coletando dados sobre os participantes, como gênero, idade, escolaridade e partido.

Os pesquisadores buscam compreender o que leva as pessoas a esses eventos e qual a influência das redes sociais no processo de polarização. O professor explica que não há critérios específicos na escolha dos protestos, embora haja três eixos: de esquerda, ligados a sindicatos; de direita por anticorrupção e, atualmente, conectados ao partido PSL; e manifestações relacionadas à juventude.

O último monitoramento foi no dia 26 de maio durante o ato “Juntos contra o Centrão”. O grupo entrevistou 436 pessoas na Avenida Paulista, entre 13 e 17 horas.

Entre as informações coletadas pelos pesquisadores foram os motivos que levaram os participantes à manifestação. O principal foi o apoio às reformas propostas pelo governo federal (75%), apoio à operação Lava Jato (8%), rejeição ao Superior Tribunal Federal (6%) e aos partidos chamados de Centrão (6%). A margem de erro é de cinco pontos e um porcentual de confiança de 95%.

O grupo questionou também a confiança dessas pessoas na imprensa. A liderança ficou com a Rede Record com 63%, depois o site República de Curitiba (44%) e o site O Antagonista (42%). Nas últimas colocações, ficaram o jornal Folha de S. Paulo (4%) e a Rede Globo (2%). A maioria dos participantes da manifestação era composta de homens (65%), brancos (66%), com renda familiar acima de cinco salários mínimos (28%) e ensino superior completo ou incompleto (68%). Para ler o relatório completo, acesse aqui.

Repercussão de notícias nas redes

Apesar de não ter monitorado as manifestações em defesa da educação, o grupo da USP analisou suas repercussões nas redes sociais, inclusive, o estopim dos protestos: a declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, no dia 30 de abril, de que haveria contingenciamento de 30% no repasse de verbas às universidades federais que estivessem promovendo “balbúrdia”.

O Monitor acompanhou o conteúdo publicado por páginas de direita e de esquerda no Facebook após a declaração, e publicou o resultado no dia 5 de maio. O grupo constatou que das dez postagens mais compartilhadas por páginas de direita sobre o tema, quatro – somando 43 mil compartilhamentos – associavam universidades públicas à bagunça ou ao “esquerdismo”. Também observou que houve 15 mil compartilhamentos de postagens lembrando os cortes no ensino superior feitos durante governos petistas.

Um segundo levantamento mostrou os resultados da monitoria feita no dia 15 de maio e no dia anterior. Segundo a página do Monitor do Debate Político, “predominaram postagens de esquerda em defesa da educação – as páginas de direita se voltaram para outros temas como o pacote anticrimes e as alterações na Lei Maria da Penha”. Nove das dez postagens mais compartilhadas sobre educação no dia 15 foram de páginas da esquerda ou de notícias reportando os atos que ocorreram no País.

As pesquisas realizadas pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital podem ser acessadas no site http://www.monitordigital.org/publicacoes/ ou na página deles no Facebook.

 

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