E agora José? A arte pode nos livrar do Ensaio sobre a Cegueira?

Por Daniela Campos de Abreu Serra, no GGN.

Na semana passada recebi pelo WhatsApp a seguinte paródia de Drummond:

E AGORA JOSÉ?

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que aponta o dedo nos outros,

prende e arrebenta,

adora dar entrevista, receber prêmio, capa de revista

posar de fuzil na mão.

viola a lei e quer mudá-la, em nome da sua própria moral, mas se enrola todo

pra explicar auxílio moradia em dobro.

E ainda diz que era pouco!

Está sem discurso,

está sem carinho,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio.

A Globo lhe dá as costas

A folha ignorou e até Reinaldo Azevedo esculacha.

E agora, José?

A aposentadoria ameaçada,

o auxílio acabou,

o abuso de autoridade passou, com o nome do reitor.

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?”

O texto foi anônimo, identificado somente como “Drummond reloaded – tá circulando na Net”[ii].  Na hora pensei: ISSO É FENOMENAL!!! O poder revolucionário da arte não pode ser subestimado!!! Usemos mais argumentos artísticos do que jurídicos, porque não aguento mais viver esse “Ensaio sobre a Cegueira” brasileiro desde o Golpe de 2016.

Sejamos capazes de reconhecer que o carnaval levado pela Paraíso do Tuiuti para o Sambódromo Carioca, templo carnavalesco da Rede Globo, foi muito mais eficiente no quesito abrangência do que os diversos movimentos e segmentos sociais que se organizaram desde o início do desmonte do Estado Social brasileiro. Até compartilhei em minha rede social as reflexões do historiador Dil Mello que, para mim, exprimiu com maestria o que estava visualizando nos meios de comunicação em massa: “O que a Paraíso do Tuiuti fez foi tão extraordinário que nenhum Movimento sequer chegou perto de fazer. Eles conseguiram implantar um Vírus poderoso no Sistema e isso gerou uma pane maravilhosa… Momento histórico…”

Por mais que tentassem se esquivar, como a transmissão era ao vivo, os repórteres não tinham como deixar de noticiar a realidade e as críticas representadas pelas alas carnavalescas na avenida, fazendo com que os retrocessos sociais que estão avançando em velocidade avassaladora fossem expostos a milhares de brasileiros e estrangeiros que comumente acompanham a transmissão do Carnaval do Rio pelos meios de comunicação em massa.

Então recordei que, antes de integrar os quadros do Ministério Público brasileiro, quando militava no movimento social ambientalista, utilizávamos em nossas práticas de educação ambiental os “Cadernos de Proposições para o Século XXI” da “Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidária” ligada à Rede Mundial Artistas em Aliança, sendo que um deles, escrito por Hamilton Faria e Pedro Garcia, intitulado “Arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário”, trazia uma reflexão capaz de expressar aquilo que estava sentindo enquanto assistia a “pane no Sistema” causado pela referida escola de samba:

Segundo Nietzsche, “só a arte tem o poder de produzir representações da existência que nos possibilitam viver. São essas representações – terreno fértil para a criação artística – que, passando pelos imaginários individual e coletivo, nos possibilitam reinventar o mundo. (…) A arte que, através do tempo, tem sido o registro de várias civilizações, documento e testemunho, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento humano e cultural. Hoje, mais do que nunca, com a crise civilizatória, e o consequente monoteísmo da razão, a linguagem da arte talvez seja das poucas que fala diretamente ao coração das pessoas, particularmente dos jovens. Além de impulsionar transformações sociais, pode contribuir para reencantar o mundo a partir do estabelecimento de fortes trocas simbólicas e formar, assim, uma comunidade de emoção[iii].”

Justamente partindo dessa premissa, ou seja, da arte como instrumento de transformação social, fiquei pensando no potencial do documentário da cineasta Maria Augusta Ramos chamado “O Processo”, que será exibido no Festival de Berlim no dia 21 de fevereiro, cujos ingressos já se encontram esgotados[iv], para auxiliar o despertar da sociedade brasileira e retomarmos o projeto do Estado Social brasileiro e a construção da sociedade livre, justa e solidária determinada pelo Artigo 3º da Constituição Federal.

Em seu livro “A tolice da inteligência brasileira”, Jessé Souza nos traz a seguinte provocação: “Nos bolsos do 1% mais rico da população brasileira, está o resultado do trabalho dos 99% restantes. E assim é há muito tempo, diante do olhar passivo de toda a população. Se a maioria subjugada quase nunca levanta a voz contra esse estado de coisas, é porque a violência física que antes permitia uma desigualdade tão grande e uma concentração de renda tão grotesca foi substituída, no Brasil formalmente democrático de hoje, por uma espécie de “violência simbólica”, que se disfarça de convencimento pelo melhor argumento. Ao dominarem todas as estruturas do poder, da informação e da inteligência, os privilegiados monopolizam os recursos que deveriam ser de todos e abrem caminho para a exploração do trabalho da imensa maioria sob a forma de taxa de lucro, juros, renda da terra ou aluguel.

Tamanha violência simbólica só é possível pelo sequestro da inteligência brasileira em prol desse 1% mais rico, que passa a monopolizar os bens e recursos escassos, sejam materiais ou ideais. Em vez de apontar para as causas reais da concentração da riqueza social e para a exclusão da maioria, essas concepções de intelectuais servis ao poder nos levam a acreditar que nossos problemas advêm da “corrupção apenas do Estado”, levando a uma falsa oposição entre o Estado demonizado, tido como corrupto, e um mercado visto como reino de todas as virtudes. Já que as falsas contradições estão sempre no lugar de contradições reais, este livro é um apelo à inteligência viva dos brasileiros de modo a desvelar os mecanismos simbólicos que possibilitam a reprodução de uma das sociedades mais desiguais e perversas do planeta[v]”.

Importante registrar que tal provocação foi realizada pelo sociólogo no ano de 2015, ou seja, antes do impeachment da Presidenta Dilma. Tal registro é importante para finalizar essa breve reflexão, para que se tenha claro que nessa altura dos acontecimentos históricos brasileiros o que a sociedade brasileira precisa enxergar não tem relação com a troca na chefia do Poder Executivo, mas com a alteração substancial na execução do projeto de Estado Social brasileiro que foi desenhado pela Constituição de 1988 e que tais mudanças somente contribuirão para agravar ainda mais as desigualdades sociais no Brasil.

E se os argumentos jurídicos e constitucionais parecem não ter capacidade de propiciar o despertar da sociedade brasileira, que nos empoderemos da arte como instrumento de transformação social.

Daniela Campos de Abreu Serra, Promotora de Justiça (MPMG), Mestre em Serviço Social pela UNESP e membro do Coletivo por um Ministério Público Transformador – Transforma MP.

 


 O original de Drummond assim se lê:

“JOSÉ

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, – e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais!

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?”

 

[ii] Através do Google, utilizando como critério de pesquisa os termos “e agora José Drummond reloaded” e “Drummond reloaded” não foi possível identificar o autor da paródia.

[iii] FARIA, Hamilton e GARCIA, Pedro. Arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário. São Paulo, Instituto Pólis, 2002.

[v] SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.


Foto: José Cruz/ABr (original modificada).

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