Morta por like perdido ou Como nossa ignorância na internet destrói vidas e democracias

Por Élder Ximenes, no GGN.

Distraído leitor¹: o começo é meio chato; quando ficar interessante é que espero, nos limites desta verve anêmica, deixá-lo puto – comigo, com a vida e, especialmente, com você mesmo.

Exemplo pessoal, para colher empatia

O virtual é o (novo) real – dizia eu em diversas petições e pareceres, quando fui Promotor Eleitoral. Tentava coibir e punir abusos nas propagandas na internet (em realidade, difamações e boataria de baixo nível). Em 2008 ainda era novo e estranho tal fiscalizar. Usávamos legislação criada no tempo dos “cartazes e faixas” para o que ainda iríamos estudar como cybercrimes. Jurisprudência atirando para todo lado. Ninguém sabia ao certo a mediana entre a “censura” e a “liberdade absoluta” na internet.

Conseguimos algumas retiradas e multas. Achávamos estar no caminho certo, lançando sementes e participando do grande debate formador da jurisdição. Hoje há alguma legislação específica que bem ajuda, mas não supera a constatação pós-moderna: as megacorporações, como Google e Facebook, são mais poderosas [2] do que o Estado Nacional. Vejo então o quão pouco foi possível fazer. Poucas andorinhas em incertos verões – concluindo que o sol jamais nasceu para todos.

Agora constatamos que plenamente livres no mundo virtual são as empresas que produzem e, especialmente, manipulam a mercadoria mais valiosa de todas, a informação. Não, você não é livre. Na verdade, segue cada vez mais sob controle e está adorando!

Obras pouco conhecidas, para aprofundar (ou mostrar erudição)

Para fins estritamente acadêmicos, estamos finalizando, por incentivo do professor Ricardo Moura, da Universidade Federal do Ceará, a tradução do livro Manual do Golpe de Estado[3], do cientista político Edward Luttwak, consultor da alta administração militar dos Estados Unidos e da OTAN. Eis alguns trechos bastante esclarecedores – especialmente para quem se fecha em um ramo do conhecimento apenas, como o Direito (ora, o Direito!):

(prefácio à nova edição)

Ao analisar o texto para determinar quais mudanças poderiam ser necessárias para a edição de 2016, encontrei muitos pequenos detalhes que precisam ser atualizados, mas também uma grande omissão: a corrupção como gatilho de muitos golpes de Estado.

É tudo uma questão de incentivos. Na ausência de corrupção significativa, os golpistas que arriscam seus pescoços para derrubar seus antecessores e conquistar o controle do governo podem ganhar apenas um aumento no status, mas não uma riqueza vasta. A diferença de salários e pensões entre coronéis e presidentes é francamente insignificante em comparação com os riscos.

Com a corrupção, no entanto, aqueles que tomam o poder podem enriquecer-se enormemente, às vezes simplesmente tomando o que querem do banco nacional do país com suas reservas de divisas, ou, mais discretamente: tomando uma comissão em todas as compras estatais de todos os que precisam de algo do governo, assegurando empréstimos de bancos estatais que nunca são reembolsados, ou estabelecendo membros da família como agentes de negócios. De fato há uma miríade de maneiras de converter o poder do estado em auto-enriquecimento. Os governantes corruptos de até mesmo os países mais pequenos e mais pobres podem se tornar rapidamente bilionários. Corrupção, portanto, na verdade gera golpes de Estado porque se bem sucedida suas recompensas materiais podem ser imensas.

Na primeira redação do golpe de Estado em 1968, eu Estava, de fato, tentando apresentar uma maneira específica de entender a vida política dos países menos desenvolvidos, menos consolidados e, certamente, menos democráticos do mundo. Desde então, a humanidade tem avançado muito em riqueza – mesmo os mais pobres dos países mais pobres são menos pobres – mas a democracia avançou muito menos, por razões que os democratas devem explorar e não negar.

Golpe é um caso muito mais democrático. Pode ser conduzido do “exterior” e opera na área fora do governo, mas dentro do Estado – a área formada pela função pública permanente, profissional, as forças armadas e a polícia.

A definição do golpe de Estado. Um golpe de Estado envolve alguns elementos de todos estes diferentes métodos pelos quais poder pode ser aproveitado, mas, ao contrário da maioria deles, o golpe não é assistido pela intervenção das massas ou por qualquer forma de combate por forças militares em grande escala. … Uma segunda característica distintiva de um golpe é que ele não implica em qualquer orientação política particular. As revoluções são geralmente de esquerda, enquanto o putsch e o pronunciamiento são geralmente iniciados por forças de direita. Um golpe, entretanto, é politicamente neutro, e não há nenhuma presunção de que quaisquer políticas específicas serão seguidas após a tomada do poder.

O golpe de Estado, por outro lado, baseia-se na utilização justamente daquelas partes do aparelho estatal que a guerrilha pretende destruir: as forças armadas, a polícia e as agências de segurança.

A técnica do golpe de Estado é a técnica do judô: os planejadores do golpe devem usar o poder do Estado contra seus mestres políticos. Isto é feito por um processo de infiltração e subversão em que uma parte pequena mas crítica das forças de segurança são totalmente subvertidas, enquanto grande parte do resto é temporariamente neutralizada. Este livro trata das técnicas militares, políticas e de inteligência que são necessárias para realizar o golpe, desde a primeira fase de infiltração até a fase final em que os alvos são apreendidos e começa a estabilização pós-golpe.

(Apresentação à edição de 1978)

O livro brilhante e original de um homem então muito jovem, publicado primeiramente em 1968, atraiu a atenção imediata e apareceu subseqüentemente nas línguas principais. É talvez de um interesse ainda maior hoje, simplesmente porque ficou mais claro durante a última década que longe de ser uma exceção felizmente rara em uma ordem mundial civilizada de outra forma, o golpe de estado é agora o modo normal de mudança política na maioria dos membros Estados das Nações Unidas. Existem agora muitas mais ditaduras militares do que democracias parlamentares, e há poucos casos em que tais ditaduras tenham sido derrubadas por “revoltas populares”. Muito mais freqüentemente, os militares são substituídos por um ou mais de seus colegas . No entanto, com tudo isso, houve um tabu virtual sobre o estudo dos golpes de Estado, e alguns críticos do presente livro, obviamente, não sabia muito o que fazer com ele. Em muitos aspectos, é fácil ver por que: a idéia de que um golpe de Estado pode ser realizado em muitas partes do mundo com igual facilidade por pequenos grupos de homens da esquerda e da direita (e, pelo que se sabe, também do centro), desde que tenham dominado algumas lições elementares da política moderna, é, naturalmente, bastante chocante.

Chocante e ultrajante. A lista de dezenas de golpes de estado após a 2ª Guerra Mundial,  documentados e comentados no livro, faz duvidar da própria civilização, no terceiro século após a Revolução Francesa. Ali estão 1964 e também as tentativas anteriores contra Getúlio. A leitura do livro e seu “passo a passo” para derrubar governantes, no Brasil atual, provoca aquela desagradável sensação de déjà vu.


Temas inusitados, para intrigar

Isaac Asimov, o Papa da ficção científica era bioquímico de formação e tratou de escrever obras de ficção corretamente científicas. Sempre evitou descrever supostos avanços tecnológicos que, por irem contra as leis da natureza, melhor quadrariam como eventos mágicos em contos de fadas. Mais The Martian e menos Star Wars. Em 1951 começa publicar a trilogia Fundação. A obra descreve um futuro muito distante, quando o ser humano colonizou a galáxia e espalhou-se tanto que sua origem na Terra não passaria de um mito perdido no tempo. Sistemas solares formam confederações com diferentes poderios bélicos e econômicos. Um governo central tenta manter a hegemonia. Conflitos. Acordos. Guerras…. Imaginem o Império Romano com laser; é por aí! Como sempre, o futuro precisa repetir o passado para que, pelo menos na literatura, possamos reconhecê-lo.

Ali surge uma nova ciência, que simplesmente consegue prever o futuro: a Psico-história. Um algoritmo absurdamente sofisticado somado à coleta ilimitada de informações produzindo estatísticas quase perfeitas sobre as grandes tendências da humanidade. Nenhum fato era desimportante: dos hábitos de consumo aos tratados comerciais; da moda às crises ambientais; do pronunciamento do Imperador à gíria no gueto. Não servia para o indivíduo no dia de amanhã (nem o horóscopo serve), mas para os bilhões de pessoas e seus (des)governos. Na obra, o cientista-herói descobre que a médio prazo haveria um conflito colossal inevitável, lançando a humanidade na barbárie durante mais de mil anos. Traça um plano para reduzir danos e garantir que a paz e algum tipo de democracia retornem em poucos séculos, bem depois da própria morte. O ponto principal é garantir que alguns grupos preservem o conhecimento e a experiência até ali produzidos e saibam usá-los em momentos cruciais. Não por acaso, usam o nome de Enciclopédia. Lutam contra os que desejam manipular este saber apenas para destruir a oposição e, também, contra os que simplesmente se opõem à razão e ao humanismo.

Mantenham esta história na “prateleira”, enquanto conto a outra.

O filme original Rollerball [4] – gladiadores do futuro, de 1975, contém uma cena que o todo justifica: um velho funcionário da biblioteca lamenta que o governo haja, em seu projeto de readequação da história, decidido apagar todos os registros sobre a Idade Média. Isto foi possível, no filme, pois toda a informação era virtualizada e centralizada.

Escândalos internacionais, para mostrar a importância

Wikileaks e Edward Snowden (em links, artigos e filmes). As entranhas da moderna geopolítica, usando as tecnologias mais sofisticadas para atingir os mesmos fins de sempre: espionar, desinformar, desestabilizar, dominar. Os Estados Unidos, a potência de um mundo unipolar pós-guerra fria, enfrentam novos blocos econômicos emergentes, em especial o BRICS [5].  Ninguém duvida de que a China (ora com boas relações com a Russia e com o Irã) será o motor econômico do século XXI, com seu eficientíssimo e brutal capitalismo de estado a atropelar dos Direitos Humanos ao Meio Ambiente. Iria o Tio Sam assistir às alianças econômicas entre estes países pacificamente? Ver o Brasil assentado nas maiores reservas de petróleo e água potável do mundo e despontando como liderança regional? O Brasil lançando satélites chineses? O Brasil desenvolvendo tecnologia bélica (inclusive enriquecimento de urânio em supercentrífuga nacional)? Nonsense! Era preciso afastá-lo deste bloco, se preciso, rebananizá-lo.

Vejam bem que, na história dos povos, isto não é ser “malvado”, não há julgamento moral aqui. Trata-se apenas de como os Impérios sempre agiram. A diferença é que atualmente o derramamento de sangue é menor ou menos explícito. Recomendamos, aliás, a leitura do O Ministério do Silêncio, de Lucas Figueiredo [6] – o qual documenta a história (e as entranhas) do S.N.I.. Agora o Déjà vu morde o próprio rabo.

Nem é preciso repisar que a arapongagem explicitamente violou sigilos de comunicação da Presidência da República e da Diretoria da Petrobrás (dentre tantos outros), visando a obter vantagens políticas e econômicas em favor do Governo dos Estados Unidos e de suas empresas petrolíferas (aliás, são a mesma coisa). Estes são fatos históricos que vale a pena manter à tona – pois quando nos distanciamos no tempo, paradoxalmente, a descoberta da verdade torna-se mais fácil [7].

Existe ainda um meio-escândalo recente e até mais grave – pois perfeitamente conhecido e cobiçado pelos governantes e opositores: a técnica de manipulação das populações via uso de propaganda maliciosa orientada pela análise de metadados. Explicando: o “sistema” espiona você, meu caro!  Seus passos virtuais, suas compras, seus likes, seus compartilhamentos, seus laços de amizade… Tudo serve para conhecer suas preferências (políticas, sexuais, consumeristas, religiosas etc…) melhor até do que seus familiares próximos. Antigamente a massa absurda de informações na internet era uma garantia de sigilo e anonimato para o cidadão comum. Afinal, não havia como analisar tanta coisa. Ocorre que a capacidade de processamento de dados evoluiu e os programas também. O futuro chegou e espantou a privacidade pela janela, sob o aplauso dos videogames e reality shows.

Resumidamente, foi assim: em 1989 Nigel Oakes, produtor de TV e empresário britânico cria um grupo de estudos na University College London, chamado Grupo de Trabalho em Dinâmica de Comportamental [8]. Este transformou-se no ano seguinte no centro de pesquisas Instituto de Dinâmica Comportamental [9] – com foco em novas metodologias de “comunicações estratégicas”. Investiram pesadamente em análise de dados e estatística, aliada a estudos de antropologia e psicologia. A partir das ferramentas existentes na época, desenvolveram novos métodos que tornaram a tradicional “propaganda política” obsoleta. Criaram o Laboratório de Comunicações Estratégicas (SCL) como núcleo de pesquisa principal em 1993 e no mesmo ano lançaram-se no “mercado” a partir de 1993 como analistas de mercado e assessores em políticas estratégicas em campanhas eleitorais: Supermarqueteiros. Passaram a atuar em campanhas da Indonésia ao Nepal, da Tailândia aos Estados Unidos. Seguiram-se contratos para assessorias dos próprios governos, para as áreas de segurança estratégica e contraespionagem, principalmente nos Estados Unidos e Grã-Bretanha – mas explicitamente trabalham para qualquer um que pagar a conta.

Prestaram assessoria para os conservadores britânicos no Brexit e atualmente é consensual que sem este trabalho não teria sido aprovada sua saída da União Européia. Para atuar na eleição estadunidense, o agora Grupo SCL criou a empresa Cambridge Analytica e ofereceu seus serviços à equipe de Trump. O resto é história…. que devagar vai revelando-se ante os eleitores bestificados e que, compreensivelmente, custam a acreditar em como foram arrebanhados.

Mas, conforme bem explicado no Manual do Golpe, a técnica é ideologicamente neutra. O debate ético reside em usá-la ou não – quer seja para vender sapatos, eleger candidatos, derrubar governos ou destruir reputações. O uso da informação na guerra sempre foi mais importante do que as armas (até para dispensá-las), como ensinam todos os textos, de Sun Tzu a Luttwak, passando por Maquiavel. Os métodos modernos são compatíveis, obviamente, com as condições objetivas dos tempos modernos – e, humildemente reconheçamos, toda época da história foi sua própria modernidade. A legião romana desenvolveu o ataque em pinça. Os ingleses venciam no começo da Guerra dos Cem anos por usarem um arco melhor. Os nazistas varreram a europa e o norte da África com a blitzkrieg e seus veículos Volkswagen refrigerados a ar. Israel sabotou o programa nuclear iraniano usando virus de computador…

Sem surpresa, todos vemos diariamente as acusações de manipulação na eleição de Trump, inclusive com interferência russa. Idem, notícias de ataques cibernéticos vindos da China e da Coréia (e também devolvidos na mesma medida). Um eventual assassinato de agente-duplo ou espião “aposentado” (como se existisse tal coisa) serve para apimentar o noticiário – mas não muda o foco na guerra de informações.

O “pulo do gato” veio com o trabalho de jovens gênios da informática e da psicologia-psicometria como Christopher Wylie, David Stillwell e Michal Kosinski. Eles desenvolveram tanto os algoritmos para captura e análise de dados dos imensos bancos de dados pessoais do Facebook (e assemelhados) como os métodos para definições de traços da personalidade daquelas pessoas. Sob a desculpa de pesquisas acadêmicas e também apresentando simpáticos quizz no Face [10], a empresa conseguiu – literalmente – entrar nas casas e conhecer as mentes de milhões de pessoas em todo o mundo. Sem qualquer violência, usando o computador pessoal e a ânsia moderna em revelar-se para o mundo e emitir opiniões em tudo. Criaram cerca de 230 milhões de perfis psicológicos (dossiês) de residentes nos Estados Unidos para uso na eleição presidencial. Eleitores. Consumidores. Alvos individuais para propaganda direcionada especificamente para influenciar as emoções, mais do que a razão.

E não existem emoções mais profundas do que aquelas ligadas ao instinto animal de preservação: o medo e a raiva. Do que eles têm medo? Desemprego? Mande post falando da plataforma econômica e culpando imigrantes e a oposição (o inimigo em comum une a “tribo”). São inseguros sexualmente? Divulgue tweets e vídeo de 6 segundos com o candidato defendendo a heteronormatividade (esculhambando gays). Têm dúvidas para a próxima eleição? Foco neles. Estão firmes com o adversário? Direcione esforços e ridicularize-os perante os adversários, reforçando as posições tipo “bolha”. Seu público é religioso? Reforce que os adversários são de outra fé ou ateus. Os adversários estão encontrando um ponto de convergência, algo que os una? Seja mais rápido e semeie a dúvida (ou a mentira mesmo) e “desconstrua” aquele fato ou aquela pessoa. Use e abuse dos bots automáticos para maximizar as postagens, viralizando qualquer coisa como se fosse opinião dominante. Lançar notícias falsas (fake news), mesclando verdades com mentiras [11], em um volume tão grande que os desmentidos ou “direitos de resposta” não tenham efeito.

Os exemplos são praticamente infinitos, pois existem as combinações de vários fatores, gerando novo jogo de informação-contrainformação.

Andy Warhol estava certo: no futuro (agora) todos somos famosos por 15 minutos – mas isto ocorre pela soma de alguns segundos diários, cada vez que uma postagem obtém algum reconhecimento. Isto vale de gatinhos a nudes, passando por sobremesas e correntes de oração… De tanto mendigar likes e comentários, a privacidade do indivíduo sumiu, arrastando um belo naco do amor-próprio.

Ligar os pontos, para assustar

Pois é. O futuro chegou como sempre: virou agora, de repente. A máquina de prever o futuro já surgiu, mas opera de forma diversa da prevista na ficção: ela manipula o presente e cria o destino desejado por quem pagar mais. A fragmentação da informação e sua crescente virtualização permitem a falsificação da própria história e dificultam a permanência da memória. Estamos próximos de reescrever (sem possibilidade de contestação) fatos, nomes e datas – pois ninguém parece querer conferir “no papel”.

O velho xadrez geopolítico continua a ser jogado e países periféricos sofrem as consequências de sempre, sob novas roupagens. Só em último caso invasões e ocupações violentas. Ao invés, praticam-se infiltrações sutilmente planejadas e mudanças de regime provocadas, apenas aparentemente, por atores locais e segundo as “regras do jogo”. É o que hoje chama-se de “Guerra Híbrida”, cujas definição [12] e obra buscamos no seio da Sagrada Família moderna: pai Google, mãe Wikipédia e bebê Face.

A guerra híbrida é uma estratégia militar com objetivos políticos e que pode combinar guerra convencional, guerra irregular e guerra cibernética com outros métodos influentes no moral do inimigo visado, bem como em sua orientação política, como notícias falsas, diplomacia e intervenção eleitoral estrangeira. Afinal, não preciso lançar bombas se posso vendê-las para a oposição do país vizinho. Não preciso fazer longo embargo econômico se posso cooptar os empresários da mídia. Para quê invadir se posso convencer aquela população de que é melhor derrubar um governo para escolher outro de minha preferência. Não preciso tomar, se posso comprar a preço vil.

Sem negar que eles próprios passassem a fazer semelhantes usos, em 2014 o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, discursou em um de seus think tanks, o Clube Valdai [13], sobre as revoltas na Geórgia e na Ucrânia:

Este é um termo interessante. Eu o aplicaria acima de tudo aos Estados Unidos e sua estratégia de guerra. É verdadeiramente uma guerra híbrida voltada não tanto a derrotar o inimigo militarmente, mas a mudar os regimes que seguem políticas não desejadas por Whashington. É o uso de pressões econômicas e financeiras, ataques de informação, uso de outros atores na periferia daqueles estados como replicadores de suas intenções e, claro, pressão ideológica e informacional através de organizações não-governamentais financiadas externamente. Não é este um processo híbrido e não é o que chamamos guerra?

Assim agem os grandes. Assim Churchill “criou” o Kuwait com “um risco no mapa”, para dificultar a união dos árabes – causa longínqua de uma guerra recente. A diplomacia, o comércio e o direito são meros detalhes e instrumentos neste grande jogo.

Eleições serão cada vez mais decididas pela influência de máquinas reproduzindo notícias falsas e semeando discórdia irracional. O debate político, do palanque à mesa de bar, parece estar com os dias contados. Afinal, o ódio e o xingamento vêm sendo semeados como substitutos eficientes do respeito e do diálogo. Se não há espaço para a discussão de idéias, para a exposição eloquente dos fatos, se o interlocutor está fechado a priori para qualquer mudança de opinião (ou de voto) –  apenas resta disputar a neutralização do “outro” pela forma que estiver à mão: golpe de Estado, lawfare, atentado, censura e repressão violenta.

As obras de ficção científica [14] costumam ser distópicas por bom motivo. Advertem recorrentemente para os riscos de ditaduras universais, na forma de corporações demiúrgicas. Tão poderosas que dispensam a vontade do povo, na mesma medida em que as pessoas desconectam-se de seus sonhos.  Engolem estados-nação e os indivíduos que deveriam formá-los – sem que eles mesmos percebam, até ser tarde demais.

Conclusões em aberto, para instigar

É preciso reconquistar o espaço do convencimento pelo diálogo, não do vencimento pelo silêncio. Pressupondo que não sejamos parte da elite realmente dominante [15], é o caso de indagar: como foi que nós ajudamos a manter tal dominação sobre nós mesmos?  Simples: bastou não fazer nada – ou melhor, basta continuar a navegar (na rede e na vida) sem pensamento crítico, dar likes de primeira, preencher “pesquisas” fofas e gratuitas e papaguear a conversa da esquina ou do púlpito…

Existem dois excepcionais polidores destas algemas contemporâneas: o costume de compartilhar automaticamente tudo que pareça simpático às próprias idéias e o de opinar sobre qualquer coisa sobre a qual não se tenha conhecimento (nem vontade de conhecer). Noutras palavras: aja como os robôs (bot) e será um deles. Desligar-se é muito mais fácil do que vivenciar a humanidade.

E como evitar tal dominação? Não precisa de coach nem guru – mas de bom senso e calma. Primeiramente, tomando consciência de si mesmo, como agente do próprio destino. Exercer a razão exige esforço e paciência – mas foi o que nos separou dos animais. Não é num clique que se atinge qualquer sabedoria ou iluminação. Evite acreditar porque viu em algum lugar – mas veja de onde aquilo veio. Desconfiemos de “movimentos” que se dizem a favor de um “Brasil Livre” e que são financiados por barões do petróleo nos Estados Unidos.

Não vamos seguir alguém apenas porque simpatizamos com suas palavras ou imagens – pois os mentirosos usam palavras simpáticas e sabem cuidar da aparência. Entre várias versões, fiquemos com aquela que se apoiar em fatos que pudermos verificar. Se você não tiver maneira de acessar os fatos, simplesmente não opine, não decida ainda. Calma! Reconheçamos nossa própria ignorância sobre aquele tema e busquemos (in)formação. Opinar melhor semana que vem é melhor do que falar bobagem hoje e arrepender-se amanhã.

Para checar a veracidade das notícias, veja se há outra fonte nas mídias (de preferência físicas, “no papel”), e consulte alguma das várias organizações e plataformas jornalísticas dedicadas ao fact checking, por exemplo: FactCheck.org e Fact Checker (EUA), o Chequeando (Argentina), Truco e Aos Fatos (Brasil). Usemos corajosamente o bom senso (mesmo entre os gritos dos ignorantes) e tenhamos em mente que, via de regra, entre duas explicações de um mesmo fenômeno, a verdadeira é a que usar menos pressuposições ou “saltos” no raciocínio (ou seja: “forçando a barra”).

Um toque de respeito não custa: se não houver benefício de verdade para o outro, não lhe envie aquela informação ou vídeo ou corrente. Lembre de que compartilhar algo dizendo que é “um absurdo”, acaba divulgando horrores do mesmo jeito – beneficiando apenas quem produziu aquele material exatamente para manipular você, pelas emoções.

No fim das contas, pode discordar e esquecer tudo o que falamos até agora, mas tente pelo menos seguir os conselhos do bom velhinho Bertrand Russell, naquele vídeo da Mensagem para o Futuro [16]: “Um conselho intelectual … Pergunte a si mesmo: quais são os fatos e qual a verdade que os fatos revelam? Nunca se deixe divergir pelo que você gostaria de acreditar… Este era o conselho intelectual… O conselho moral é: o amor é sábio, o ódio é tolo! Neste mundo cada vez mais interconectado, nós temos que aprender a tolerar uns aos outros. Nós precisamos aceitar o fato de que algumas pessoas dizem coisas de que não gostamos… precisamos viver juntos, não morrer juntos…”

Isto vale para respeitar a vida e a memória de tantos mártires (que nem precisavam ser “santos”): de Martin Luther King a Chico Mendes e Dorothy Stang.

Isto vale para Marielle Franco – que tentam matar de novo, via sequência cruel de fake news sempre desmascaradas. São notícias falsas, mas já foram compartilhadas – talvez por um amigo nosso. Quem sabe, por você mesmo, que sem refletir recarregou de likes a arma que continua disparando contra a memória da morta…

Isto vale para o Face. Vale para o Whats.

Para esta leitura.

Para você.

Ser.

Humano.

Élder Ximenes Filho é membro do Transforma MP, Mestre em Direito Constitucional / UNIFOR e Promotor de Justiça.


1 Homenagem ao início do Dom Quixote: “Desocupado leitor…”.

2 Lembram daquelas suspensões do WhatsApp – que não pode colaborar com investigações? As tentativas do Judiciário não eram ridículas, como as redes sociais fizeram crer. Simplesmente não há como leis humanas superarem estes demiurgos modernos – os Sistemas.

3 Coup d’État: A Practical Handbook. Penguin. Londres, 1968; Edição revisada: Cambridge, 1979. Disponível na Amazon.

4 Adaptando o conto de William Harrison, publicado na revista Esquire, em 1973.

5 Brasil (é bom ser o primeiro, nem que seja numa sigla!), Russia, China, Índia e África do Sul.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/lucas-figueiredo/ministerio-do-… ou na Saraiva ou na Amazon.

7 Os sigilos dos documentos oficiais são levantados e os personagens envolvidos aposentam-se ou morrem, diminuindo a pressão em favor do segredo.

8 Behavorioural Dynamics Working Group, no original.

9 Behavorioural Dynamics Institute (BDI).

10 O MyPersonality foi um dos primeiros. O último deve ter estar agora em sua página do Facebook.

11 A mesma estratégia do Diabo, segundo os medievos.

12 https://en.wikipedia.org/wiki/Hybrid_warfare

13 http://valdaiclub.com/a/highlights/remarks_by_foreign_minister_sergey_lavrov_at_the_xxii_assembly_of_the_council_on_foreign_and_defence/

14 Citando os filmes e sugerindo os textos: Metrópolis, Admirável Mundo Novo, 1984, Blade Runner, Ghost in a Shell, Black Mirror, Altered Carbon…

15 Quem é da elite (o 1%) ou quem caninamente presta-lhe serviços pensando fazer parte da mesma (parte da “classe média”), logicamente defende qualquer tipo de dominação, repressão e defesa de privilégios.

16 https://www.youtube.com/watch?v=IJcqP9fGBSk

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