O que será de nós?

Por Paulo Brondi.

O atual Ministro da Justiça está convidado como palestrante para o Congresso Nacional do Ministério Público, que acontece anualmente. Fico apenas imaginando sobre o que o ex-juiz irá falar. Sobre suas reiteradas traquinagens reveladas pelo The Intercept?

Preocupa-me que o maior congresso dessa imensa instituição, guardiã da ordem jurídica e dos interesses democráticos, forneça palanque a alguém que comprovadamente pouca quantia dá a tais valores. Qual a justificativa de tê-lo como palestrante, estender-lhe a mão “amiga”? Dar-lhe “apoio e suporte” em momento tão doloroso de sua vida? A troco de quê? Qual serviço relevante prestou ao Ministério Público? Nomes muitos outros haveria para se prestar tributo. Hugo Mazzilli, Cândido Dinamarco, Sepúlveda Pertence, em suma, gente ilustrada que fez carreira no ´parquet’. Ou, então, tantos outros bravíssimos colegas que mais e melhor teriam a dizer aos ouvintes.

O convite foi pelas mãos da Associação Nacional do Ministério Público (CONAMP), que também há poucos dias convidou o Exmo. Presidente da República, Jair Bolsonaro, para tomar lugar no mesmo evento. Exato, o mesmo Presidente que agora ameaça dar de ombros à lista tríplice encaminhada pelos Procuradores da República para a escolha do próximo Procurador-Geral da República, desrespeitando um “costume” democrático que a rigor só foi mesmo seguido pelos “comunistas vermelhos” aos quais nutre tanta malquerença. Exato, o mesmo Presidente cujo filho, enrolado até as orelhas com um suposto caso de lavagem de dinheiro e pés de laranja-lima, esculachou a instituição e votou a favor do projeto de “Lei de Abuso de Autoridade”, no Senado, a 26 de junho deste ano.

Aliás, surge agora a “hashtag” #vetaBolsonaro – em referência à lei mencionada – compartilhada instituição adentro, como se dependêssemos do favor presidencial para sobreviver. Beija a mão e pede “bençá”. Melhor dos mundos para a trupe bolsonarista, que poderá nos dar uma piscadela, vetando pontos obviamente absurdos (inconstitucionais) da lei, e, ao depois, nomear quem lhe aprouver como Procurador-geral, com o silencioso(?) beneplácito da categoria. “Vejam o que fiz por vocês! Vetei. Fiz minha parte. Não reclamem”.

Culpa nossa por assumir no passado um discurso hipócrita e proibir constitucionalmente que membros se candidatassem a cargos eletivos. Estamos de fato alijados do Parlamento, cabendo-nos apenas ceder os anéis – e talvez até perdendo os dedos.

Não deveria o Ministério Público expor-se de maneira tão vil e se dobrar dessa forma. Urge que o convite a Moro seja retirado, desfeito. Tenho sinceras dúvidas a respeito da total aquiescência dos membros da instituição à presença do outrora “lucumone”, tão juridicamente inculto (seus títulos pouco ou nada dizem) e agora desmascarado às escâncaras. Figura pública miúda, enfim.

Os cafetões de porre no botequim querem tirar o MP para dançar, vamos deixar? A instituição se prestará a tamanha vassalagem, abrindo suas portas a essa gente bocória? Colocará a prêmio sua reputação ilibada construída anos a fio por grandes personagens, dando palco a jagodes de duvidosa estatura moral, de rabo preso com o que há de mais reacionário e extremado na política brasileira?

Por que não também o “Delegado Waldir”, então?

O Ministério Público não se parece com essa gente, não se lhes assemelha em nada. Temos alma democrática – ou deveríamos ter.

Não custa lembrar Maquiavel: “dizem os médicos: no princípio do mal, é fácil a cura e difícil o diagnóstico; mas, com o decorrer do tempo, não sendo conhecida, nem medicada, a doença será de fácil reconhecimento, mas de difícil cura.”

Por tais caminhos que anda enveredando desavisado o Ministério Público, temo que em poucos anos se torne um doente terminal.

Paulo Brondi é Promotor de Justiça do Ministério Público de Goiás


Foto: Gabriel Cardoso/ SBT

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