Os nossos atos falhos de cada dia

Por Romulo de Andrade Moreira, no Empório do Direito.

Em nossa vida cotidiana e sem que, necessariamente, percebamos, cometemos determinados lapsos que passam como algo insignificante e sem qualquer importância do ponto de vista psíquico. É até mesmo possível que assim o sejam – sem relevância nenhuma -, mas o contrário também pode se dar.

Sempre atento às nossas reações físicas – das mais importantes às mais comezinhas -, Sigmund Freud, em 1916, apresentou um estudo sobre o que ele denominou de “atos falhos”, consistentes em “certos fenômenos muito frequentes, muito conhecidos e muito pouco estudados, os quais nada têm a ver com enfermidades, uma vez que podem ser observados em toda pessoa saudável.”[1]

Para facilitar a compreensão de suas ideias, ele dividiu os atos falhos em tipos, sempre afirmando que “são de natureza desimportante, e a maioria possui duração bastante fugaz, sem grande significado na vida das pessoas.

Inicialmente tratou dos lapsos verbais ocorrentes “quando alguém, pretendendo dizer uma palavra, diz outra em seu lugar, ou quando isso lhe acontece ao escrever, podendo a pessoa notar ou não o equívoco.”

Em seguida chama a atenção para os lapsos de leitura, “quando, em um texto impresso ou manuscrito, lemos algo diferente do que está escrito.

Também o lapso de audição, “em que se ouve algo diferente do que foi dito, sem que, é claro, se possa atribuir o equívoco a um distúrbio orgânico da capacidade auditiva.

Há ainda os lapsos de memória, consistentes em “um esquecimento que não é permanente, mas temporário, como quando alguém não consegue se lembrar de um nome, que conhece e geralmente torna a reconhecer, ou quando se esquece de pôr em prática uma intenção, dela se lembrando posteriormente, ou seja, depois de a ter esquecido apenas em determinado momento.”

Alguns desses atos falhos, porém, não têm o caráter temporário, característico dos anteriores, “como é o caso, por exemplo, do extravio, que ocorre quando alguém guarda um objeto em determinado lugar e, depois, não logra reencontrá-lo, ou, algo análogo, a perda do objeto.” Estes casos, normalmente, e ao contrário dos outros “esquecimentos”, “provoca perplexidade ou irritação”, especialmente por não serem compreensíveis como os anteriores o são.

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Entre os lapsos de memória, há ainda lugar para “certos equívocos, nos quais também está presente o caráter temporário – por algum tempo, acreditamos em algo que, sabíamos antes e sabemos depois, não é o que pensávamos.

Freud fez questão de enfatizar, mais de uma vez, que tais fenômenos – “aparentemente tão insignificantes” -, apenas raramente adquirem “certa importância prática, como na perda de objetos. Por isso, eles não chamam muita atenção, despertam somente pequenos afetos e assim por diante.” De toda maneira, a psicanálise não subestima supostas “ninharias” (como ele próprio diz), tampouco abandona “os pequenos indícios; a partir deles, talvez seja possível encontrar a pista de coisa maior.

Quanto ao lapso verbal – objeto maior de sua atenção, por ser o mais “apropriado dos atos falhos” – pode, efetivamente, ser fruto de algo orgânico, fisiológico ou mesmo psicofisiológico, como o cansaço físico, os distúrbios circulatórios, a indisposição, uma dor de cabeça, uma enxaqueca, a agitação, a distração, a falta de concentração, ou “quando outras coisas demandam fortemente a atenção.” Com efeito, tais fatores podem ocasionar “toda sorte de atos involuntários.”

Acontece que tais atos falhos, segundo a experiência comprova, também “ocorrem em pessoas que não estejam cansadas, distraídas ou nervosas, e sim em seu estado inteiramente normal.” Assim, “a teoria da falta de atenção não dá conta de explicar todas as pequenas características dos atos falhos. Mas isso não significa que ela esteja errada. Talvez lhe falte algo, algum complemento que venha a torná-la plenamente satisfatória.”

O que Freud quer mostrar em seu estudo é que o ato falho – especialmente o lapso verbal – tem natureza de um “ato psíquico pleno, munido de objetivo próprio, devendo, assim, ser compreendido como uma manifestação dotada de conteúdo e significado.” A maioria deles “possui um sentido[2], razão pela qual “poderemos deixar de lado todos os fatores fisiológicos e psicofisiológicos e nos dedicar à investigação puramente psicológica do sentido, isto é, do significado, da intenção contida no ato falho.

Freud, então, dá um exemplo de lapso verbal ocorrido na Câmara de Deputados na Áustria, quando o seu Presidente, ao abrir a sessão, disse, solenemente: “Senhores deputados, constato um número suficiente de membros na casa e declaro, portanto, encerrada, a sessão.” O fato ocorreu! À luz da psicanálise, o Presidente da Câmara dos Deputados não “esperava nada de proveitoso da sessão e ficaria feliz se pudesse encerrá-la de imediato.” Ele, “ao dizer o oposto do que pretendia, deixa claro que deseja abrir a sessão, mas deixa igualmente claro que gostaria de encerrá-la. Isso é tão evidente que nada resta aí a interpretar.”

Para Freud, “em certos casos, os atos falhos parecem revelar sentido próprio”, não sendo mera “obra do acaso, mas atos psíquicos sérios; possuem um sentido e nascem da conjunção – ou melhor, do confronto de duas intenções diferentes.” Negar tal fato, é ter a “ilusão de uma liberdade psíquica à qual não desejamos renunciar.

Especialmente em relação aos lapsos verbais – mas também nos demais -, a psicanálise explica-os a partir da existência de intenções ou tendências opostas, umas ditas “perturbadoras” e outras que são por aquelas “perturbadas”, sem prejuízo, em um caso ou outro, de eventuais causas diversas (de natureza psicofisiológica), como acima exemplificadas, visto que “o lapso verbal é igualmente possível em um estado de saúde perfeito e de pleno bem-estar.

Dá-se, portanto, uma “interferência mútua de duas intenções diversas, das quais uma é a que sofreu perturbação, ao passo que a outra é a perturbadora”, ambas, evidentemente opostas, e o ato falho é exatamente “a representação do conflito entre duas inclinações incompatíveis.” Conclui-se, portanto, “que a repressão da intenção de dizer algo é condição imprescindível para que o lapso verbal ocorra.” Deve uma dessas intenções “experimentar certo rechaço para que, mediante a perturbação da outra, possa manifestar-se.” Trata-se, destarte, “de um jogo de forças na psique, como manifestação de tendências dotadas de metas, que trabalham em consonância ou dissonância umas com as outras.

Freud adverte ser fundamental “levar em consideração que a vida psíquica é praça e campo de batalha para tendências opostas”, compondo-se “de contradições e pares de oposições.”

Naquele caso do Presidente da Câmara dos Deputados, então, “´declaro a sessão aberta, mas preferiria já tê-la encerrado` é o sentido do lapso verbal cometido por ele.”

Vejam este outro exemplo, bem interessante e ilustrativo, narrado por “uma senhora sabidamente enérgica: ´meu marido perguntou ao doutor que dieta seguir. Mas o doutor respondeu que ele não precisava de dieta nenhuma, que pode beber e comer o que eu quiser`.” Neste caso, ela queria, na verdade, dizer: “meu marido pode comer e beber o que quiser, mas, o senhor sabe, eu não tolero que ele queira alguma coisa.”

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Já em outros tipos de atos falhos, “quando alguém esquece um nome que lhe é conhecido ou tem muita dificuldade em guardá-lo, por mais que se esforce, é natural supormos que essa pessoa tem alguma coisa contra o portador do nome em questão e, por isso, não gosta de lembrá-lo.”

Conta Freud que Carl Gustav Jung (seu discípulo que mais tarde romperia com o Mestre[3]), contou-lhe o seguinte caso: “Um certo senhor Y apaixonou-se perdidamente por uma dama que, logo a seguir, se casou com um senhor X. Embora conheça o senhor X há muito tempo, tendo com ele inclusive uma relação de negócios, o senhor Y vivia esquecendo seu nome. Muitas vezes, quando queria escrever ao senhor X, precisava perguntar seu nome a outras pessoas. O senhor Y claramente não quer saber coisa nenhuma de seu feliz rival.´Melhor é nem lembrar dele.`

Um outro colega de Freud, Abraham Arden Brill contou-lhe o seguinte: “Uma dama pergunta ao médico sobre uma conhecida comum, mas a chama pelo nome de solteira. Do sobrenome adotado após o casamento, ela se esqueceu. Confessa, então, ter ficado bastante insatisfeita com aquele casamento e não suportar o marido da amiga.”

Em outro caso, agora relatado pelo psiquiatra suíço Alphonse Maeder, “uma senhora, na véspera do casamento, esqueceu-se de ir experimentar o vestido de noiva, dele se lembrando apenas ao anoitecer, para desespero da costureira. A esse esquecimento ele vincula o fato de, pouco depois, a dama haver se separado do marido.”

Freud agora volta a sua atenção para um tipo de ato falho “particularmente rico em significados e inescrutável: aqueles casos em que perdemos um objeto ou não sabemos onde o guardamos.” Nestes casos, muito possivelmente, o objeto é “casualmente” perdido “depois de nos indispor com a pessoa que o deu a nós, da qual não queremos mais nos lembrar; ou, então, quando deixamos de gostar do objeto em si e passamos a procurar um pretexto para substituí-lo por outro melhor. Com essa mesma predisposição contra o objeto, nós o deixamos cair, quebramos ou destruímos.” Os exemplos são vários e todos “produzem sempre o mesmo resultado: tornam provável que atos falhos possuam um sentido e mostram como depreender ou confirmar esse sentido a partir das circunstâncias que o acompanham”, pois “o ser humano abriga tendências capazes de entrar em ação sem que ele saiba da existência delas.”

No que diz respeito ao lapso de escrita, segundo Freud, “assemelha-se em tal medida ao verbal que dele não nos cabe esperar obter novas perspectivas.” Os exemplos dados pelo autor (muito longos, razão pela qual não os citaremos), reforçam esta sua afirmação.

Já no lapso de leitura, “encontramos uma situação psíquica que claramente difere daquela verificada nos lapsos da fala e da escrita.” Aqui, “substitui-se a palavra a ser lida por outra, sem que isso implique necessariamente uma relação de conteúdo entre o texto e o resultado do lapso, que em geral se assenta em alguma semelhança de palavras.” Assim, “tendo lido algo indesejado, a pessoa se convence, por meio da análise, de que o responsável pelas alteração do que foi lido é um desejo intenso de rejeitá-lo.

Freud também procura analisar o porquê do “esquecimento de nomes próprios e de nomes estrangeiros, assim como o de palavras estrangeiras.” Também se revela nestes fenômenos “uma intenção contrária, a qual direta ou indiretamente se volta contra o nome em pauta” e, mais especificamente, “uma aversão da memória a se lembrar de coisas vinculadas a sentimentos de desprazer, sentimentos estes que a lembrança poderia reavivar. Essa intenção de evitar o desprazer provocado pela memória ou por outros atos psíquicos, essa fuga psíquica do desprazer, nós podemos identificá-la como motivação última e eficaz não apenas do esquecimento de nomes, mas também de muitos outros atos falhos, como, por exemplo, as omissões e os equívocos.”

Dá-se o mesmo no esquecimento de impressões e experiências vividas, onde também atua essa “tendência a afastar da memória o que é desagradável.” Como exemplo, Freud cita Darwin que, ciente dessa possibilidade de ato falho, “adotou como ´regra de ouro` registrar com especial cuidado observações que pareciam desfavoráveis a sua teoria, porque estava convencido de que justamente essas não queriam se fixar em sua memória.”

Por último, analisa-se “a perda e o extravio de objetos.” Fenômenos de múltiplos significados, neles há sempre uma tendência comum a todos os casos: “o desejo de perder o objeto.” Assim, “perdemos uma coisa quando ela se danificou, quando temos a intenção de substituí-la por outra melhor, quando deixamos de gostar dela, quando proveio de alguém com quem nossas relações se deterioraram ou quando foi adquirida em circunstâncias que não desejamos mais recordar.” Pode se dá o mesmo quando esquecemos alguma coisa em algum lugar, danificamos a coisa ou a quebramos.

Encerrando o seu trabalho, e após admitir que estava “longe de ser tudo que haveria a dizer sobre os atos falhos”, sendo necessária ainda muita pesquisa e muita discussão, Freud encerra afirmando que “o grande valor dos atos falhos reside no fato de serem eles fenômenos bastante frequentes, facilmente observáveis em nós mesmos e cuja ocorrência não pressupõe de modo algum que estejamos doentes.”

Rômulo de Andrade Moreira é membro do Transforma MP, Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia. Professor de Direito Processual Penal da UNIFACS, na graduação e na pós-graduação (Especialização em Direito Processual Penal e Penal e Direito Público). Pós-graduado, lato sensu, pela Universidade de Salamanca/Espanha (Direito Processual Penal). Especialista em Processo pela UNIFACS.


[1] O texto consta do Volume 13 das Obras Completas de Sigmund Freud – “Conferências Introdutórias à Psicanálise”, publicadas no Brasil pela Editora Companhia das Letras, em 2014, e traduzidas por Sérgio Tellaroli. O texto, na 1ª. reimpressão da coleção, consta às fls. 19 a 108.

[2] Segundo Freud, “por ´sentido` entendemos significado, intenção, tendência e posicionamento numa série de nexos psíquicos.

[3] Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, “em 1912, o conflito entre Freud e Jung se tornou evidente, quando Jung preparou a publicação de ´Metamorfoses da alma e seus símbolos`, que teria muitas reedições. A discordância foi completa a respeito da teoria da libido. Mas a gota d`água foi um acontecimento menor. Freud foi visitar Ludwig Binswanger (um conceituado psiquiatra suíço), operado de um tumor maligno e não passou por Küsnacht (uma comuna suíça onde residia Jung), que ficava apenas a cinquenta quilômetros de Kreuzlingen (outra comuna suíça e onde se encontrava o amigo doente de Freud). Jung interpretou esse gesto como uma ofensa. Depois de várias disputas, durante as quais Jung tentou convencer Freud da necessidade de dessexualizar sua doutrina (nem que fosse, disse ele, para que ela fosse mais bem acolhida), a ruptura se consumou em 1913. Freud tomou a iniciativa de romper, depois de uma síncope durante o jantar do Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA).” (…) “Em 1919, Jung elaborou a noção de arquétipo, oriunda da noção de imago”, afastando-se “radicalmente do universalismo freudiano.” (Dicionário de Psicanálise, Rio de Janeiro: Zahar, 1998, páginas 422 e 423).


Foto: Associated Press

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