“Por que você entrou para o jornalismo?" — Mike
"Curiosidade." — Dan Rather
"Só isso?" — Mike
“Isso é tudo.” — Dan Rather
Como primeira dica neste espaço, ocorreu-me um filme que, no meu entender, teve menos badalação do que o merecido, apesar de algumas indicações e prêmios de menor prestígio.
Conspiração e Poder (EUA, 2016) já valeria pelas atuações de Robert Redford e, especialmente, Cate Blanchett. Mas o filme entrega mais. O enredo, baseado em acontecimentos reais, traz um tema muito atual, que tende a se manter relevante. A investigação jornalística sobre indícios de fraude e favorecimento no histórico militar de George W. Bush, candidato à reeleição em 2004.
Em ritmo de thriller, a trama se desenvolve nos bastidores do jornalismo, da política e suas influências recíprocas. A tensão é assustadora. Impressiona muito. Divergindo de algumas críticas que questionam a universalidade do tema, a exploração do clima de pressão e ameaça daquilo que é escolhido pela linha editorial, bem como pela responsabilidade e consequências do que é publicado, é um tema central da formação da opinião pública, não estando restrita aos EUA.
As reviravoltas da narrativa, com os jornalistas sendo levados a integrar os fatos que estão sendo retratados,
A cena em que duas personagens viram celebridades representa uma mudança de paradigma: jornalistas que estão acostumados a acompanhar fatos passam a fazer parte de fatos a serem acompanhados.
Seu lado maternal ao interagir com o filho, embora o jornalismo esteja claramente impregnado na família; seu lado profissional, que domina majoritariamente suas emoções a depender do rumo tomado; e seu lado vulnerável, que tem como frentes o passado traumático (que retorna para atormentá-la) e a relação com Dan. Mary não é unidimensional, materializando o que o longa tem de melhor em termos artísticos (embora a dimensão de esposa seja mal explorada). Simbolicamente, ela abandona o costume de desligar a televisão no meio da matéria, o que representa ganho de coragem.
Em síntese, “Conspiração e Poder” peca por exagerar na frieza impressa na direção, embora o roteiro tivesse potencial para um drama razoável. Não obstante, a participação de Blanchett já é motivo suficiente para assistir ao filme.
Continuo pensando que foi uma felicidade ter encontrado essa obra e investido meu tempo nela. Já vi três vezes e em cada uma das vezes encontrei novos detalhes intrigantes que tocam, encantam e fazem pensar.
Recomendo!
Leomar Daroncho é Procurador do Trabalho e integrante do Coletivo Transforma MP.